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Colômbia, a nova Argentina do cinema latino-americano

Colômbia, a nova Argentina do cinema latino-americano

Enquanto alguns brasileiros ligados em cinema celebravam na última década a chegada (em maior peso) de filmes argentinos aos circuitos comerciais do país, uma outra cinematografia latino-americana ia pouco a pouco depositando os tijolos que hoje a tornam uma das mais fortes da região: a colombiana. Duvida? Esqueça, só por um momento, Ricardo Darín (O filho da noiva, O segredo de seus olhos e tantos outros sucessos da Argentina) e passe o olho pela programação da 39a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – que termina nesta quarta-feira, 4 de novembro. Dos pouco mais de 300 títulos selecionados na programação, cinco vêm da Colômbia, e todos são ótimas produções, premiadas em festivais, aclamadas pelo público e pela crítica.

A terra e a sombra, uma coprodução colombiana com outros quatro países (Brasil incluído), é um exemplo de que o novo cinema colombiano conquistou o lugar cativo que a Argentina teve no começo dos anos 2000 em festivais de primeira linha e, na sequência, com sorte, em salas do mundo todo. Dirigido pelo estreante César Augusto Acevedo, de Cali, o longa-metragem foi lançado este ano no Festival de Cannes, onde despertou paixões generalizadas com a história de um velho camponês que volta para casa para cuidar do filho, adoecido em função das queimadas nas plantações de cana de açúcar, e recuperar sua família. “Esse filme nasce de uma dor pessoal, após a morte da minha mãe, e da realidade da minha região, onde existe o cultivo predatório da cana. Misturei as coisas para falar como às vezes é difícil manter os laços com os seres que amamos e com a terra”, conta Acevedo, que teve diferentes funções no cinema antes de debutar como diretor. Esse debut deu tão certo que ele, de cara, foi premiado com a Camera d’Or, o reconhecimento de Cannes aos novos talentos da direção.

 



Não são poucas as relações que se pode fazer entre o que há por trás de A terra e a sombra e o Brasil. Talvez por isso, o filme tenha sido até agora um dos preferidos da Mostra, que compila os votos do público após as sessões. O cultivo da cana, com as queimadas insalubres e as duras condições de trabalho dos cortadores, é cruel aqui também. E os atores do filme representaram essa realidade atuando a partir de suas próprias vivências: são amadores que trabalharam com a alagoana Fátima Toledo, preparadora dos elencos de filmes como Pixote, Cidade de Deus e Tropa de Elite – responsáveis por sua projeção em toda a América Latina, onde já participou de dezenas de projetos. “Em princípio, queria trabalhar com atores profissionais, mas logo descobri que a história pedia uma interpretação que desse verdade a esses corpos”, explica o jovem diretor, de só 28 anos. Seu filme será lançado comercialmente pela Pandora Filmes ainda este mês, dia 19.


Verdade – autenticidade – é o grande trunfo de outro grande filme colombiano que participou da 39a Mostra, O abraço da serpente, de Ciro Guerra. Filmada em branco e preto na Amazônia, a história aqui é a de um xamã, último sobrevivente de sua tribo, que decide sair de seu isolamento voluntário para acompanhar um pesquisador alemão em busca de uma planta sagrada. Poderia soar como “mais um filme amazônico”, se tal categoria existisse, mas não é. O abraço, que também circulou em Cannes e lá recebeu um prêmio na Quinzena de Realizadores, é maduro em todas as partes que o compõem: no roteiro de Guerra (em parceria com o francês Jacques Toulemonde) – no qual passado, presente e futuro estão ligados –, em um elenco que projetou na tela personagens absolutamente autênticos – destaque para o índio Karamakate em sua versão jovem –, na fotografia arriscada e lograda com maestria, na trilha sonora... enfim, na personalidade única que desponta do conjunto. É chamativo o salto de Ciro Guerra, de 34 anos, de Los viajes del viento, seu último longa, a esse projeto – que também tem distribuição já garantida no Brasil, pela Esfera Filmes, no ano que vem.

 


Mais um destaque colombiano desta Mostra é o filme Alias Maria, de José Luis Rugeles, que fala diretamente da guerra que a Colômbia vive há quase 60 anos e que contrapõe guerrilhas, paramilitares e o Exército. O tema, especificamente, é a participação de crianças e jovens no conflito: a guerrilheira Maria, de 13 anos, está grávida e tem a tarefa, junto com três outras crianças-soldado, de levar o bebê recém-nascido de seu comandante a um lugar seguro. Para não ter que abortar e se livrar da cruel realidade em que vive, ela escapa no meio da missão. Segundo o Human Rights Watch, há 11.000 crianças recrutadas pela guerra colombiana – fato que esse filme, ainda sem distribuidor brasileiro, retrata com sensibilidade que poucos tinham alcançado. Alias Maria participou da competição oficial do Festival de Biarritz, um dos principais entre os focados em cinema latino-americano, assim como a coprodução Peru-Colômbia Magallanes, dirigida pelo peruano Salvador del Solar, também selecionada para a Mostra (e pela distribuidora carioca Esfera, que vai lançá-lo em 2015).

 



Segundo Claudia Triana de Vargas, à frente da agência de fomento e promoção do cinema colombiano, a Proimágenes Colombia, “há ainda muito o que fazer”. Mas ela se diz mais do que satisfeita com o enorme salto de 13 para 28 filmes nacionais produzidos e estreados no país entre 2008 e 2014. E também com o incremento do número de espectadores em geral: de 21,5 milhões em 2008 para 46,9 milhões em 2014 (118% em seis anos). Além das cifras prometedoras – que engordam o fundo de desenvolvimento do audiovisual do país – ela celebra também a lei que transformou a Colômbia em cenário internacional com a garantia de devolução 40% dos gastos em produção audiovisual a quem venha filmar em solo colombiano. “São esforços que estão transformando a nossa indústria. Esperamos que eles não só nos posicionem melhor no cenário cinematográfico internacional, como nos conectem aos países vizinhos, com quem estamos coproduzindo cada vez mais”, afirma.


A Colômbia não só quer ser a nova Argentina, como anda investindo pesado para isso.

 




Fonte: rasil.elpais.com