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É preciso humanizar a mídia sobre as migrações, dizem comunicadores migrantes

É preciso humanizar a mídia sobre as migrações, dizem comunicadores migrantes

Roda de conversa com comunicadores migrantes debateu desafios que cada um vivencia em seus cotidianos e marcou também relançamento de plataforma sobre mídias imigrantes

Além do que aparece nos meios de comunicação, as comunidades migrantes também possuem seus próprios veículos para informação e debate sobre as questões de cada uma – ou mesmo das migrações em geral. Destacar essas expressões foi um dos objetivos da Roda de Conversa de Comunicadoras e Comunicadores Migrantes de São Paulo, que aconteceu na tarde do último domingo (01/07).

Organizada pela Missão Paz (que sediou o evento), pelo Grupo de Pesquisa Deslocar (da ESPM), Museu da Imigração e pelo MigraMundo, a roda de conversa também serviu para apresentar a Plataforma de Mídias de Imigrantes de São Paulo e aproximar os profissionais que atuam com a temática das migrações. A atividade teve transmissão ao vivo pelo Facebook e pode ser vista novamente a partir do player abaixo:

Diversos coletivos participaram do evento, promovendo um diálogo sobre as experiências, projetos e rumos desses veículos – além de abordarem a forma com as migrações, em suas diversas vertentes, vêm sendo reportadas pela mídia.

Além dos anfitriões, a Equipe de Base Warmis, o Bolívia Cultural, a SIGNS Brasil, a Associação de Comunicadores Bolívia Brasil e o Serviço Pastoral dos Migrantes endossaram a discussão sobre as narrativas escolhidas pelas mídias em geral para retratar esses personagens – e sobre como procuram se contrapor às abordagens mais negativas.


Durante as quase três horas de duração da roda de conversa, cada representante pôde apresentar o trabalho desenvolvido pelas suas mídias, bem como a história, o público de alcance e todas os percalços para que tomassem seu espaço como propagadores de informação – alguns, até mesmo, sem qualquer apoio econômico.


Cultura como caminho

Um assunto abordado por boa parte dos presentes foi a cultura como porta para aproximar as pessoas. No entanto, ela não pode ser pautado de forma isolada. “A cultura é um caminho de difundir o que é o processo migratório, mas a cultura sozinha ela não é nada. Nosso trabalho está além da parte cultural”, enfatiza Patrícia Rivarola, voluntária da Rádio 9 de Julho, que conta com um programa voltado à temática migratória.  Brasileira e filha de paraguaios, ela ressalta que os meios de comunicação migrantes precisam tratar além das contribuições culturais e econômicas locais trazidas pelos migrantes.

Quebrar barreiras é o foco, mostrar que independente de quem entra e quem sai dos países, são todos humanos que precisam de atenção. “Meta para criar uma ponte, uma comunidade brasileira e a comunidade imigrante”, explica a estadunidense Sam Serrano, da Equipe de Base Warmis, cujo trabalho é focado nas mulheres migrantes.

A forma como os migrantes são apresentados na mídia pode reforçar ou quebrar estereótipos acerca das migrações. “Alguns jornalistas optam pelo caminho mais fácil, ‘uma abordagem mais pop ou que vai gerar mais engajamento nas redes sociais’, mas que muitas vezes é inadequada para tratar daquele tema”, pondera o editor e idealizador do site MigraMundo, Rodrigo Borges Delfim. Ele diz que, apesar de existir dificuldade em pautar matérias sobre migrações nas grandes redações, por meio da comunicação é possível combater imagens negativas sobre o tema.

 

Roda de conversa reuniu comunicadores migrantes e iniciativas de comunicação voltadas à temática migratória.
Crédito: Amanda Louise/MigraMundo

 

á o jornalista e radialista chileno Miguel Ahumada, da Web Rádio Migrantes, é crítico quando trata-se dos assuntos pautados pelos grandes meios de comunicação. Aliás, para ele, os próprios imigrantes deveriam produzir seus conteúdos, por conta da vitimização exposta e a abundante diversidade cultural trazida na bagagem. “Os imigrantes e refugiados precisam começar a pautar a sua própria notícia, criar uma forma de rede. Notícias migratórias a partir de uma visão do imigrante (…) É importante criar esses canais de comunicação de pautar a mídia”.

O comunicador boliviano Antônio Andrade, fundador do portal Bolívia Cultural, levanta uma ideia de como os comunicadores podem ajudar a minimizar os rótulos e sensacionalismos que visam somente receitas. “Humanizar as matérias. Cabe a nós, profissionais de comunicação, que estamos começando no ambiente, pensar se eles entraram no mercado para melhorar o mundo ou para manter ele do jeito que está”. Ele próprio cita que encontrou na cultura o poder para “quebrar o gelo” entre brasileiros e bolivianos, mostrando as familiaridades culturais dos dois países.


Centenas de mídias

O universo dessas mídias tocadas por migrantes ou dedicadas ao tema é maior do que se pode imaginar em um primeiro momento. Uma prova é a plataforma “Mídias de Imigrantes de São Paulo”, criada em meados de 2016 e relançada durante a roda de conversa.


 

Desenvolvido em parceria entre o Museu da Imigração e o grupo de pesquisa da ESPM, a plataforma é um local na web para reunir e preservar mídias migrantes. Já conta com mais de 300 itens, algumas datadas entre 1886 a 1987, que foram digitalizadas para o arquivo, oriundos de acervo do Museu da Imigração. São projetos produzidos pelos imigrantes: documentários, grupos de redes sociais, links para web rádio e vídeos, sites e diversos outros formatos e canais.

Para Patrícia, da Web Rádio Imigrante, a plataforma é uma maneira das pessoas tomarem conhecimento do que acontece no âmbito da imigração dentro da cidade de são Paulo e no Brasil.  Já Andrade destaca a importância desses registros como forma para que os problemas e vitórias não sejam esquecidos.


Ao final, foram também distribuídos exemplares do “Guia das Migrações Transnacionais e Diversidade Cultural para Comunicadores – Migrantes no Brasil”, com dicas e sugestões de fontes para orientar jornalistas na cobertura da temática migratória no Brasil.


O material também pode ser baixado gratuitamente a partir do MigraMundo (clique aqui).



Por Amanda Louise?Em São Paulo (SP)

fonte: migramundo.com