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Quer saber como funciona a pichação e o tag entre outros?

Quer saber como funciona a pichação e o tag entre outros?

A Casa Amarela reúne uma versão atual de artistas de rua, mais conhecidos como pichadores. Saiba mais e conheça quem são estes artistas da contracultura da cidade de São Paulo.

 

Turma de artistas da contracultura na CASA AMARELA em São Paulo.

 

Quer saber como funciona a pichação?


Comecemos por um glossário: em primeiro lugar, não existe pichação nesse mundo, o correto é pixação. A mesma coisa acontece com pixo, que serve tanto para verbo (eu pixo, tu pixas…) quanto para denominar determinado pixo. E o que vem a ser “determinado pixo”? É o que no grafite (ou graffiti, para os mais íntimos) se chama crew e que, para a polícia, pode ser visto como bando ou gangue.


Se alguém perguntar o que você “lança”, esse alguém quer saber qual pixo você representa, o que você costuma rabiscar na parede. Mas como há mais de um tipo de rabisco, vou separar em três: pixo, união (ou grife) e tag. O pixo, bem, já expliquei, então vou pular para os outros dois.


União (ou grife) é um símbolo usado para juntar diversos pixos que têm linhas políticas semelhantes. Por exemplo: eu lanço “MSK8” (Movimento Skate) e tenho a união “Assustados”, meu amigo lança “LDS”(Ladrões) e também tem a mesma união. Algumas dessas grifes marcam uma briga histórica no movimento: “Os Podrão” e “Os+Im” (Os Mais Imundos) há anos são rivais dos “RGS” (Os Registrados), que por sua vez são parceiros dos “Risca União São Paulo” – criada, até onde sei, para fazer frente à “União São Paulo”, parceira dos Podrão. E assim vai…

 

Jah (autônomo), Leandro (comerciante dono de bar), Luan (vendedor), Danielle (estudante). Artistas da contracultura falam com o Planeta América Latina.


No pedaço da Zona Sul onde eu moro a briga forte sempre foi entre a “União Tormento” (parceira dos Podrão) e os poucos RGS que têm por aqui. No Centro, quem manda são os RGS, então a cena daqui é invertida por lá. É meio complexo, mas funciona direitinho na pixação e todo mundo que está dentro conhece bem os limites do que está fazendo.


Tag, o terceiro tipo de rabisco, foge um pouco disso tudo aí de cima. As tags foram importadas do graffiti, em que são usadas como assinatura. É bem fácil diferenciar uma tag de um pixo convencional porque a tag geralmente é difícil de se ler e parece mesmo com uma assinatura (e muitos preferem fazer tag com giz de cera), enquanto o pixo costuma usar letras espaçadas. Já a união quase sempre forma um desenho; por exemplo: Os Podrão é representado por uma careta dentro de um O, Os RGS, por um morcego do Batman e Os+Im é um símbolo de mais (+) com as letras O, S, I e M espalhadas pelas extremidades.


Para fechar o glossário, preciso explicar que rolê, para pixador, significa sair pra pixar. Pegar um beiral significa (adivinha?) pixar um beiral. Pegar uma janela e pegar um prédio seguem o mesmo raciocínio. Quebrar um pixo significa escrever sobre, e atropelar significa escrever atravessando (as duas coisas podem gerar briga).

 

 

 

De onde

Como é que eu sei tudo isso? Obviamente, porque já fui da área. Fui apresentado ao movimento em 1999 por intermédio de duas pessoas que nem se conheciam – todo mundo pixava naquela época. Assinei como LDO, LND, Leo e ST (de Soterrado, me chamavam assim porque um dia caí do telhado dentro de uma escola).


Antes disso, em 1998, eu já rabiscava uns graffitis em folhas de papel ouvindo RZO e De Menos Crime no meu walkman. Depois, fui para a pixação, fiz tag, voltei para o graffiti (dessa vez em muro, mesmo), colei sticker, colei lambe-lambe e fiz stêncil. Ou seja: era bem maloqueiro.


Na pixação, que eu me lembre, fui do “NTRS” (Naturais), “Coyots”, “FOM” (Foda-se o Mundo), “ILS” (Ilusões), “CBR” (Camburão), “Luto”, “DKD” (DKDência), “NCL” (Necrópole) e “ODR” (Os Donos da Rua), mas aposto que se puxar bem, lembro de outros. Fui cabeça de uns desses (tipo chefe), criador de dois e dono de uma grife, a “Manos da Zona Sul” – o que significa que criei ela e só eu podia dizer se outras pessoas podiam usar ou passar para outros usarem.


Por uma daquelas coincidências estranhas da vida, esses dias encontrei na rua um dos caras que estavam comigo em 2001, 2002, por aí:


- E aí, ST, parou com a brincadeira? – perguntou ele.
- Parei, Luizinho, parei – respondi.
- Pô, faz uma folhinha pra mim ae?!


Folhinha é outra coisa que eu deveria ter explicado. É uma espécie de autógrafo, o cara vai lá e faz no papel o que costuma fazer na parede. Às vezes uma folhinha tem vários pixos, porque vários autores resolvem compartilhar o mesmo papel. Algumas pessoas comercializavam isso; eu mesmo tinha uma coleção gigantesca, que doei quando larguei a pixação pelo graffiti e pela namorada, que pareciam ser mais interessantes.


E daí?

Por que eu resolvi escrever sobre isso? Porque desde 2008, quando um grupo invadiu o Centro Universitário Belas Artes, a pichação (e aqui começo a escrever direito) passeia pela mídia e, mesmo assim, com quatro anos de destaque para o movimento, ninguém se propôs a explicar como as coisas funcionam para esse pessoal. Mas só posso falar da minha época, já que há anos sei disso apenas o que vejo na mídia, ou seja, nada.


Pichar écrime, não preciso lembrar. Mas ainda assim é uma tribo, que aqui no Brasil conta com milhares de representantes, concentrados principalmente em São Paulo.


No mundo inteiro existe pichação, e em cada lugar ela é vista de um jeito, em cada lugar ela serve para alguma coisa, não seria bom se alguém tentasse entender por que isso é tão forte por aqui? Sim, e é o que vem sendo feito, sem sucesso. A melhor teoria que já ouvi sobre o porquê de pichar veio do grafiteiro Chivitz, que em um debate na MTV explicou que por não haver opções razoáveis de lazer na periferia, os garotos inventam o que fazer – isso deve valer para o crime em geral.


Mais do que descobrir a razão, acho que a mídia deveria ter contado como funciona esse mundo, já que agrega tanta gente.


Não sei o que leva alguém a pichar, só adianto que é necessário ter certa vocação. A maioria dos pichadores famosos é composta por pessoas que são boas em outras coisas e todos os que conheci têm aquela caligrafia invejável que, mesmo se você fizer anos de treinamento, não vai alcançar. A caligrafia paulistana, aliás, deveria ser objeto de estudo profundo, porque os traços daqui não são vistos em canto nenhum do mundo – Chivitz também defendeu isso.


Sempre ouço aquele tipo de crítica padrão sobre esse movimento: “É coisa de quem não tem o que fazer.” E, quer saber?, deve ser mesmo. Mas pichar é divertido, por mais que não faça sentido para quem vê de fora. Aliás, o pichador escolhe seus alvos para impressionar seus pares, e não a sociedade: prédios, rotas de ônibus, trem e metrô, por exemplo. É bem comum encontrar diálogos entre uma pichação e outra, às vezes por provocação, às vezes por coleguismo.

 


Enfim, o que eu tinha pra explicar, já expliquei. Tomara que quando você ler alguma coisa sobre isso no jornal, entenda um pouco mais e consiga extrair melhor a mensagem. Quando vir um rabisco desses, tente entender o que está escrito, identificá-lo com outros… você vai descobrir um mundo inteiro na parede.


por: Leonardo Pereira