Entidades reforçam rede de solidariedade aos refugiados latino-americanos

ACNUR, parceiro do Memorial da América Latina em outras ações como o curso de português para refugiados, incentiva ações de proteção a latino-americanos contra as consequências da pandemia da Covid-19

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Entidades reforçam rede de solidariedade aos refugiados latino-americanos

Desde 2018, os latino-americanos são os que mais solicitam reconhecimento de condição de refúgio no Brasil.  Só naquele ano, foram mais de 80 mil solicitações, sendo 61.681 de venezuelanos, 7 mil de haitianos e 2.749 de cubanos.  Para que essa população não sofra ainda mais com os efeitos da pandemia da Covid-19, as entidades que atendem pessoas em situação de refúgio se uniram para reforçar a rede de proteção. Entre elas, está o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). O ACNUR já é parceiro do Memorial da América Latina, junto com a Cáritas-SP e a Universidade Nove de Julho (UNINOVE) na promoção do curso de português para refugiados. Nesta rede de solidariedade há exemplos de solidariedade de diferentes atores do Estado e da sociedade civil.

As ações do ACNUR para a rede de proteção 

As cinco crianças usam máscaras hospitalares – dessas que se tornaram acessório obrigatório nos tempos da pandemia. Cada uma das máscaras estampa o símbolo de uma tradição religiosa: islamismo, budismo, cristianismo, judaísmo e hinduísmo. Os gestos de devoção são diferentes, mas as cores brilhantes, os quadrados e triângulos provocando um efeito de caleidoscópio e os olhares de súplica não deixam dúvida: estamos diante do estilo inconfundível do artista paulistano Eduardo Kobra, conhecido internacionalmente por seus murais gigantescos.

Esta obra não irá, pelo menos por enquanto, embelezar as ruas de nenhuma cidade do mundo. Trata-se de uma serigrafia, com um número limitado de cópias, todas numeradas e assinadas pelo autor. Estas serigrafias de Kobra foram sorteadas, em  maio, entre os participantes de uma campanha cujo formato simples pode servir de modelo para quem quiser ajudar os menos protegidos diante da epidemia da covid-19.

Ao apresentar o projeto, com a #aartedeajudar, Kobra diz que “nestes tempos de necessário isolamento social, é preciso ter fé. Independentemente de nossa localização geográfica, de nossa etnia e de nossa religião, estamos unidos em uma mesma oração: que Deus inspire os cientistas para que encontrem a solução para essa pandemia – e conforte nosso coração para que tenhamos forças e sigamos juntos como humanidade”. É um bom exemplo de solidariedade, pois de uma maneira criativa aborda dois dos segmentos mais frágeis e esquecidos da sociedade: os moradores de rua e os refugiados.

Quanto a estes últimos, o ACNUR adverte que nesta crise “migrantes e refugiados são desproporcionalmente vulneráveis à exclusão, estigma e discriminação, principalmente quando não documentados. Para evitar uma catástrofe, os governos devem fazer todo o possível para proteger os direitos e a saúde de todos.”

Diante deste chamado, entidades da sociedade civil se somaram aos esforços do Estado e puseram mãos à obra, como por exemplo a organização não governamental Eu Conheço Meus Direitos, ou IKMR (I Know My Rights).

Viviane Reis, uma das coordenadoras da entidade, explica que eles são a única organização humanitária brasileira dedicada especialmente às crianças refugiadas. E que, de forma indireta, atendem o núcleo familiar no qual elas estão vinculadas. “Os adultos refugiados foram atingidos diretamente, já na primeira semana da quarentena”, explica Viviane. “Isso porque a maioria vivia de bicos e empregos informais e perderam o trabalho e a renda; nós temos ajudado com alimentos, produtos de higiene e limpeza e medicamentos; além disso, colocamos um pediatra de plantão 24 horas para eles não precisarem ir ao pronto socorro sem que haja necessidade; ajudamos também no cadastramento para receberem o auxílio emergencial do governo, mas até agora a maioria está em análise e poucos receberam”.

Empreendedorismo e solidariedade

Para ajudar a população em situação de rua foi idealizado o projeto A Arte de Ajudar, parceria da IKMR com a Cia. Nissi. A ideia é diminuir o impacto da pandemia contratando microempreendedores refugiados para distribuir marmitas à população de rua. Qualquer pessoa podia contribuir com kits que, além de alimentação, continham produtos de higiene e limpeza. Quem doasse mil kits tinha garantida a serigrafia do Kobra. Os demais participariam do sorteio de uma cópia numerada e assinada pelo artista. Até o início de maio já foram arrecadados R$ 350 mil.

Um destes microempreendedores foi a venezuelana Ylmary de Perdomo, que chegou ao Brasil em março de 2016. Ylmary era terapeuta ocupacional. “Saí de lá devido à violência. Tinha a sensação de que podiam entrar na minha casa e sequestrar alguém da minha família a qualquer momento”, lembra-se. “No começo, tentei trabalhar aqui como terapeuta ocupacional, mas percebi que teria que me reinventar”. No dia das mães do mesmo ano, uma das filhas de Ylmary pediu que ela levasse algum presente para a professora. “Pensei em fazer um bolo de pote típico da minha terra”, conta. “Logo passei a vender bolos e café da manhã na rua e a entregar por encomenda”.

Foi quando ela participou de um projeto do ACNUR em São Paulo, chamado Empoderando Refugiadas, bem como da plataforma Migraflix, que promove o empreendedorismo intercultural por meio do projeto Raízes da Cozinha. A partir dessas experiências, Ylmary pensou que talvez pudesse unir uma antiga paixão – cozinhar – com a necessidade de prover a sobrevivência da sua família (ela veio com o marido, dois filhos e uma enteada). Foi assim que surgiu, em março de 2018, Tentaciones da Venezuela. A microempresa vinha muito bem, especialmente com participações em eventos gastronômicos. “Mas com a pandemia, parou tudo. Era como se tivéssemos voltado quatro anos, quando não sabíamos o que fazer”, conta.

Tentaciones da Venezuela foi uma das iniciativas de refugiados contatadas pela IKMR para a campanha A Arte de Ajudar. “Fizemos durante abril pelo menos cem marmitas por dia, que foram distribuídas a quem tem fome, seja refugiado ou não”, explica Ylmary. É o que garantiu a sobrevivência da sua família neste período de recolhimento. Com isso, ela pode se reorganizar. “Estamos também produzindo almoço para quem precisa trabalhar em casa e não tem tempo de fazer”.

Willian Torres Laureano da Rosa, assistente sênior do ACNUR em São Paulo, explica que a entidade, além de financiar organizações como a IKMR, atua diretamente junto aos refugiados venezuelanos que entram pelo norte do Brasil e estão se interiorizando. “Distribuímos pelo menos 7.300 itens de ajuda internacional aos mais vulneráveis, que inclui kits de higiene e limpeza, colchões, redes, fraldas e roupas, que beneficiaram mais de 14 mil pessoas – isso apenas depois do início da quarentena”.

Uma das iniciativas do ACNUR em São Paulo – em parceria com a Unicamp e o Ministério Público do Trabalho – é a compra de máscaras fabricadas pelos próprios refugiados e distribuídas em abrigos que acolhem outros refugiados e imigrantes em situação de risco, como os da Missão Paz.

Outra parceira do ACNUR na cidade é a Cáritas-SP, que distribui cestas básicas (cerca de 100 por semana) aos refugiados e os auxilia a ter acesso ao benefício emergencial do Governo Federal, entre outras ações, como a distribuição do Guia de apoio psicossocial para migrantes e acesso à saúde no enfrentamento do coronavírus, em parceria com o CDHI – Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante – e a Missão Paz.

Desde 2018, os venezuelanos são a nacionalidade mais numerosa atendida pela entidade. Embora os quatro programas da instituição (Assistência, Integração, Proteção e Saúde Mental) estejam sendo oferecidos remotamente, devido ao distanciamento social, as necessidades aumentaram, conforme explica Nilton Carvalho, assessor de comunicação do Centro de Referência para Refugiados, da Cáritas-SP. “Considerando que neste período muitas pessoas estão sem trabalhar, sobretudo os trabalhadores autônomos, as demandas por doações aumentaram bastante. Por isso, atualmente, estamos com uma campanha aberta para arrecadação de doações”.

Para saber como doar, escreva para [email protected]

Português para refugiados: uma ação do CBEAL

Desde 2019, o Centro Brasileiro de Estudos da América Latina (CBEAL), da Fundação Memorial da América Latina, em cooperação com a Secretaria Estadual de Direito e Cidadania, desenvolve uma parceria muito bem sucedida com o ACNUR, a Cáritas e a Universidade Nove de Julho (Uninove): o curso de português como língua de acolhimento para pessoas em situação ou solicitantes de refúgio no Brasil. A cooperação entre as instituições, reconhecidas nas suas áreas de atuação, surge da percepção do uso da linguagem como instrumento para interação entre povos, sobretudo no atual contexto de alto fluxo migratório em São Paulo. Saber a língua do país derruba fronteiras e permite que as pessoas solicitantes ou em situação de refúgio se integrem mais rapidamente.

Durante o ano de 2019, 52 pessoas receberam o certificado de conclusão do curso, em duas turmas mistas, compostas de alunos de várias origens, incluindo Venezuela, Chile e Bolívia.

Equipe CBEAL

fonte: memorial.org.br

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