Os 85 anos de Mercedes Sosa, a voz da América Latina

No último dia 09 de julho Mercedes Sosa, a “cantante del pueblo” (“a cantora do povo”), estaria completando 85 anos. Nascida no mesmo dia da Independência da Argentina, sua voz se tornou sinônimo de luta e consciência dos povos latino-americanos por sua liberdade.

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Os 85 anos de Mercedes Sosa, a voz da América Latina

Roberto “Che” Mansilla*, do Rio de Janeiro,
RJPublicado em: 11/07/2020 06h25

Mercedes personificou esse ideal em várias canções que interpretou como nas de Violeta Parra, Victor Jara, Atahualpa Yupanqui, Milton Nascimento, Pablo Milanés, Charly Garcia, entre outros.  

O primeiro álbum de Mercedes Sosa foi lançado em 1959 e até 2009, quando faleceu em Buenos Aires, lançou mais de 30 discos. “La Negra”, como ela era conhecida carinhosamente por sua origem ameríndia, se tornaria uma das cantoras mais importantes de Nuestra América que ousaram sonhar (e ainda sonham) com outra realidade social, mais justa e humana.

Da infância pobre aos primeiros anos como intérprete

Haydée Mercedes Sosa nasceu numa família humilde em 09 de julho de 1935 em San Miguel de Tucumán, na província de Tucumán, no nordeste da República Argentina. A pobreza de sua infância foi lembrada pela própria Mercedes ao dizer que sua família contava com os recursos mínimos para a sua subsistência, chegando a conhecer a “angústia da fome”. 

Sua principal diversão nessa época era frequentar, com seus irmãos, o Parque nove de Julho; um grande espaço público de recreação e atividades artísticas, onde as crianças tucumanas brincavam. Para a pequena Mercedes, estar nele era uma forma de divertir “com um brinquedo que nunca teve”. (1)

Mesmo com as enormes carências materiais que sua família enfrentava, o carinho e a união de seus pais ajudavam a superar tamanhas dificuldades.

Naqueles anos, a jovem Mercedes aprendia canções que escutava nas rádios das amigas. Ainda era uma estudante, quando em 1950, escondida de seus pais, decidiu participar – sob o pseudônimo de Gladys Osorio – de um concurso de canto, organizado pela radio LV-12, a mais importante da Província de Tucumán. “Quando terminou, o dono da rádio me disse: ‘Você ganhou o concurso”. (2) Mesmo ainda sem decidir se seria uma cantora profissional, Mercedes continuava a cantar na rádio, ganhando algum dinheiro para ajudar a família.

Esse momento da vida de Mercedes Sosa se combina com o início de um movimento dos jovens tucumanos de contestação cultural em que também esboçavam ideais políticos, muitos influenciados pelo peronismo. Os jovens viravam a noite tocando, cantando, recitando poesias e debatendo. Apesar da pouca idade, Mercedes começava a se interessar pelas questões sociais.

Importante lembrar que esse era um período conturbado na História política da Argentina. As tensões entre o governo argentino comandado por Juan D. Perón e a oposição chegaram a um ponto de tensão máxima na metade de 1955. Manifestações dos dois lados se tornaram cada vez mais frequentes, com episódios de violência. A Igreja Católica, antiga aliada de Perón, assumiu uma postura de oposição e reuniu os grupos que conspiravam ultranacionalistas e militares contra o governo. No mesmo mês de junho daquele ano, houve a tentativa de assassinar o presidente argentino. Um ataque aéreo lançado pela marinha bombardeou a Casa Rosada, sede do governo, levando a morte de mais de 300 pessoas que estavam na Plaza de Mayo. Tratava-se de um aviso de que um golpe se aproximava. E este se concretizou, três meses depois, em setembro, obrigando Perón a se exiliar da Argentina. (3)

Em 1957, Mercedes conhece Manoel Oscar Matus, um cantor por quem se apaixona e que segundo ela, “mesmo sendo muito pobre, foi aquele que compôs a canção mais linda que já havia cantado”. Poucos meses depois se mudou com ele para Mendoza, onde se casaram. Lá, começaria de fato sua carreira profissional, junto com um grupo de amigos intelectuais gerou o movimento que ficou conhecido como “Nuevo Cancionero” que introduziu questões sociais nas letras das canções. 

Pode-se dizer que o “Nuevo cancioneiro” foi um movimento que seguia manifestações semelhantes em outros países da América Latina. No Brasil Geraldo Vandré percorreria um caminho similar, explorando a música popular do nordeste. No Chile havia a Nueva Canción Chilena, cujos nomes principais eram Violeta Parra e Victor Jara e, em Cuba, o movimento Nueva trova apresentava nomes importantes como Pablo Milanés. Era, portanto, um momento de grande renovação cultural e integração da música popular no continente, que expressavam a necessidade de consciência dos povos em relação aos problemas sociais de cada país. (4)

Em 1958, Mercedes e seu marido se mudam para Buenos Aires, tentando uma maior projeção em sua música e melhor sua condição de vida. A sorte bateu em sua vida. Conseguiu um emprego no Ministério de Educação e também lugar para morar.

A “descoberta” da originalidade de Mercedes para a música latino-americana

Em 1965 um convite transformaria a carreira de Mercedes Sosa. O cantor Jorge Cafrune, convidou-a para se apresentar no famoso festival nacional de folclore de Cosquin. Interprentando “Canción del Derrumbe Indio” (de Fernando Figueiredo) e acompanhada apenas de seu “bombo” (tambor) teve uma atuação exitosa, rendendo muitos aplausos do público. (5) O sucesso no festival rendeu um contrato com a gravadora PolyGram e lhe garantiu o merecido sucesso. Mas nesse mesmo ano teve sua primeira perda. Seu marido a abandonou com o filho pequeno. De qualquer forma sua carreira seguia crescendo a passos largos. 

Em 1966, lançou um trabalho essencial: o LP “Yo no Canto para Cantar” e, no ano seguinte partiu para sua primeira turnê bem sucedida: nos Estados Unidos e Europa. Sua arte transcendia idiomas e culturas. No mesmo ano de 1967, Ariel Ramirez lhe sugeriu que gravasse um novo álbum: “Mujeres argentinas”. Nesse álbum está a celebre canção imortalizada por Mercedes “Afonsina y el Mar” (6) Ainda, no ano de 1967, significou tempos renovadores na vida pessoal de Mercedes se uniu com Francisco “Pocho” Massetelli, seu segundo marido e que seria o novo empresário de sua carreira.

Em 1971, edita um material com grande conteúdo ideológico “Homenaje a Violeta Parra”, onde grava canções como “La Carta”, “Volver a los 17” e um de suas mais célebres intrepretações, “Gracias a la Vida”. (7)

No ano seguinte, Mercedes Sosa lançou o álbum “Hasta la victoria” – seria este um trocadilho intencional de uma das famosa frases usadas em discursos políticos pelo Comandante Che Guevara?- que traz forte conteúdo social e político, como podem ser observadas nas canções “Balderama”, “Hasta la victoria” (8), “Canción por el fuzil y la flor” e em “Plegaria de un Lavrador”. (9) Estas canções passaram a ser vistas como uma “ameaça ao regime” que se fechava e a crise que se abateu com a morte de Juan Domingos Perón (1974), mostrava sinais de passividade e consentimento diante da ação de organizações paramilitares de extrema direita. Nesse sentido, como lembra, seu filho Fabian, “A Triple A (Aliança Anticomunista Argentina), passava a colocar bombas no teatro onde Mercedes trabalhava”. (10) Esse grupo, de viés fascista, disponibilizava listas de pessoas que deveriam deixar o país. Caso contrário seria “desaparecidas”. 

A perseguição política

O engajamento político expresso no álbum “Hasta la Victoria” (1972) e proximidade de Mercedes Sosa com o Partido Comunista atraíram a atenção da censura, numa época em que criticar o governo era extremamente perigoso. 

A última ditadura argentina teve início por meio de um golpe de Estado em 24 de março de 1976, depondo a então presidenta da República, “Isabelita” Perón. Uma junta militar, composta pelas três representantes das Forças Armadas, assumiu o poder e, em seguida, indicou o general Jorge Videla para presidir o país, dando início ao terrorismo de Estado onde estima-se que mais de 30 mil pessoas tenham sido mortas durante essa ditadura.

Artistas como Mercedes Sosa seriam perseguidos pelo novo regime golpista. Em 1979, um ano depois de ficar viúva de seu segundo marido, a brutalidade dos militares se fazia presente na vida de “La Negra”. Num show que realizaria, em La Plata, foi invadido por  agentes da ditadura fortemente armados e levaram presos a artista e o público de 200 pessoas aproximadamente. Ela foi libertada 18 horas depois devido a uma pressão internacional. Nos dias seguintes, as ameaças contra sua vida aumentavam e o exílio acabou sendo sua única escolha. 

Com três malas e uma bolsa de mão, ela embarcou para Paris, em fevereiro de 1979, primeira escala se seu exílio. Depois se fixou mais em Madrid. Apesar da repercussão artística que teve, com grande reconhecimento do público europeu, nos mais variados países que se apresentou, sofreu a solidão do exílio, deixando marcas profundas. Havia a incerteza se voltaria, ou não para Argentina. Mercedes vivia uma grande angústia.

No início dos anos 1980, mesmo debilitada, a ditadura continuava no poder, na Argentina. No começo de 1982, Mercedes decide voltar a seu país. 

O regresso a sua amada pátria

Há um ótimo documentário produzido por Ricardo Wullicher (11), que retrata a volta de Mercedes Sosa do exílio, mostrando a grande admiração que muitos argentinos, já maduros ou mais jovens, tinham por Mercedes. Esse carinho pode ser constatado durante o início do ano de 1982, quando a cantora anuncia que faria três shows em Buenos Aires. Rapidamente os ingressos se esgotaram. Muitos queriam revê-la. Não a haviam esquecido, mesmo com a forte censura da ditadura sobre suas músicas. 

Durante as noites dos shows, havia uma grande quantidade de informantes do serviço de inteligência do governo que devem ter ficado de cabelo em pé, quando o grande público gritava: “libertad, libertad, libertad” em alusão ao fim da ditatura e também em relação aos milhares de presos políticos do regime. Eram os momentos finais da ditadura argentina.

Em novembro do mesmo ano de 1982, Sosa voltou a sua terra natal, Tucumán. No documentário citado de Wullicher, há esse registro emocionante quando ela, ao descer do avião, dá de cara com uma faixa enorme que saudava o retorno de sua filha mais ilustre: “Bienvenida a tu Tierra, Negra querida”. A Província parou. Sosa deixou o aeroporto e desfilou num carro, “escoltada” por cavaleiros locais, até um hotel, enquanto saudava os populares e outros a esperavam no local. Nem o exílio forçado foi capaz de diminuir esse apreço e como diz a letra de uma emocionante canção “Tantas veces me mataron / Tantas veces me morí, sin embargo estoy aqui, recucitando. Gracias doy a la desgracia y a mano con puñal por que me mato tan mal, y segui cantando (…) igual que sobreviviente, que vuelve de la guerra” (12)

A voz de Mercedes Sosa era o signo livre de uma geração da América Latina que ansiava por mudanças políticas e sociais.

Ao longo da década de 1980, Mercedes Sosa gravou vários álbuns e participações, inclusive com artistas brasileiros, como Raimundo Fagner (13) e esteve, novamente no Brasil onde participou de um programa com vários nomes da MPB, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Gal Costa”. (14)

Os últimos anos

Na vida pessoal, Mercedes Sosa, enfrentou uma série de problemas de saúde. No final dos anos 1990, foi diagnosticada com uma forte depressão causada, provavelmente, pelo acúmulo dos momentos difíceis, das dores e do isolamento do exílio. Mesmo com debilidades “La Negra” seguiu se apresentando. Cantou ao lado de Luciano Pavarotti e, em 1994, lançou o álbum “Misa Criola” (1994) ganhando o Grammy Latino, considerado o melhor álbum folclórico. 

Em 2000, com a morte de sua mãe, Mercedes entrou novamente em depressão e sua saúde estava muito frágil. No entanto, continuava com suas aulas de canto, onde procurava, com impressionante humildade “se escutar”. Em 2008 faz sua última turnê pelo Brasil, EUA e Europa. Mas logo depois foi internada, permanecendo por quase um mês, devido a complicações renais que se agravaram. 

No dia 04 de outubro de 2009, Mercedes Sosa faleceu em Buenos Aires. Sua morte gerou grande comoção dentro e fora da Argentina. Foi uma despedida com grandes homenagens.

 “Morio la Pacha Mamá, que vuelve a la tierra” mas que tornou Mercedes Sosa deixou um legado de coerência ideológica e ética política. Elevou a cultura latino-americana a um patamar jamais visto até então, não apenas pelas canções que gravou, mas por divulgar grandes compositores como Victor Jara, Violeta Parra, Atahualpa Yupanqui, Pablo Milanés entre outros, “imortalizando-os” com sua voz potente e única. Talvez, ela mesma seja a grande responsável pela ideia de continentalidade que, Che Guevara resgataria como um traço fundamental de qualquer perspectiva revolucionária de mudança social.  

Numa época de neofascismo no Brasil, ouvir Mercedes Sosa (ou descobrir para outros que ainda não a conhecem bem) não é apenas um alento, mas uma chamada de luta para derrotarmos as ameaças do bolsonarismo às liberdades democráticas. Nesse sentido, vale resgatar uma passagem de uma de suas mais famosas canções “cambia, todo cambia” (muda, tudo muda). (15)

* Professor de História e militante da Resistência/PSOL-RJ.

fonte: esquerdaonline.com.br

fonte: esquerdaonline.com.br

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