83º Aniversário do Levante do Gueto de Varsóvia celebra resistência feminina na Casa do Povo

Evento reuniu lideranças mulheres e destacou luta contra o patriarcado em cerimônia no Bom Retiro

São Paulo, 11/05/26 às 04:05h
Atualizado, 11/05/26 às 11:45h

Na noite de quinta-feira, 7 de maio, a Casa do Povo, localizada no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, sediou a cerimônia em memória ao 83º aniversário do Levante do Gueto de Varsóvia. O evento, que começou às 19h30, reuniu lideranças femininas de diferentes frentes de luta para refletir sobre a resistência judaica contra o extermínio nazista ocorrida entre 19 de abril e 16 de maio de 1943, estabelecendo pontes com as formas de enfrentamento contemporâneas.

 

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Casa cheia na Casa do Povo para a cerimônia dos 83 anos do Levante do Gueto de Varsóvia, com o tema “o levante das mulheres contra o patriarcado”. Deputada Erika Hilton foi a oradora principal da noite. (Foto: Bolívia Cultural).

 

A celebração anual integra o calendário institucional da Casa do Povo desde o anúncio de sua construção em 1946, conectando o passado histórico da instituição às lutas do presente. Nesta edição, o tema central foi “o levante das mulheres contra o patriarcado”, abordando tanto a violência e desigualdade históricas quanto as resistências que se renovam a cada geração.

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A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, foi a oradora principal da noite. Reconhecida como a primeira mulher negra e trans eleita para o Congresso Nacional, Hilton discursou por aproximadamente 40 minutos no palco central.

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ENTREVISTAS EXCLUSIVAS

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Deputada Erika Hilton: “Honrar memórias lutando por justiça e reparação.” Para ela, mulheres imigrantes são sempre as mais atingidas, por isso, trazer suas vozes para o debate público é essencial. (Foto: Bolívia Cultural).

Deputada Erika Hilton: “Honrar memórias lutando por justiça e reparação”

Em entrevista concedida ao portal Bolívia Cultural, a deputada federal destacou a importância de celebrar a data histórica. Afirmou que é fundamental olhar para a história para que ela nunca mais se repita e para que nunca mais seja esquecido o que foi o holocausto, a escravidão, a ditadura e outros períodos que aniquilaram, mataram, destruíram e desumanizaram pessoas, dadas as suas devidas proporções. Segundo ela, existem muitos períodos na história que poderiam ser comparados a esses, e que é preciso honrar essas memórias lutando por justiça, direito, cidadania e reparação, porque é nisso que acredita.

Questionada pelo Bolívia Cultural se a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, que preside em Brasília, também carrega a pauta das mulheres imigrantes que sofrem discriminação e violência em São Paulo e no Brasil, a deputada respondeu que sim. Afirmou que tem buscado atender não só a pauta das mulheres, mas da população imigrante, que muitas vezes é violada, agredida e não tem uma série de direitos assegurados, enfrentando muitas dificuldades para viver no país. Hilton disse que tem falado com essa população e que as mulheres são sempre as mais atingidas em qualquer contexto. Para ela, as mulheres sempre têm um histórico mais duro, sejam as imigrantes ou não, e sempre acabam pagando uma conta mais alta. Por isso, trazer as vozes e a luta dessas mulheres para dentro do debate público e político do Brasil é muito importante.

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“Ocupar espaços de articulação política é necessário para que migrantes tenham incidência e visibilidade nas lutas coletivas.” – Jobana Moya (Warmis), mulher imigrante quechua boliviana. (Foto: Bolívia Cultural).

Jobana Moya, liderança quechua boliviana: “Ocupar espaços de articulação política”

Jobana Moya, fundadora do Coletivo Equipe de Base Warmis – Convergência das Culturas, foi uma das mulheres convidadas para o acendimento da primeira das seis velas na cerimônia principal, representando a mulher imigrante boliviana. O ato simbólico homenageou as vítimas do holocausto.

Em entrevista ao Bolívia Cultural, Moya afirmou que participar de um evento como o Levante do Gueto de Varsóvia é muito importante porque os bolivianos sabem que é necessário conhecer a própria história para saber para onde se encaminhar. Lembrar o levante é relevante porque em vários momentos da história da humanidade a desumanização tomou conta dos espaços de poder, eliminando vidas e populações, algo que ainda se presencia hoje. Ela disse que este momento de lembrar, mas também de manter viva a chama de enfrentar e lutar, mesmo quando parece que são poucos e que pode ser muito difícil, é muito importante, e que o cerimonial foi um grito sobre as mulheres, com o discurso da deputada Erika Hilton sendo muito potente.

Moya destacou que a deputada Hilton reforçou a importância da articulação entre mulheres, movimentos sociais e pessoas para que não se perca a humanidade. Ela expressou gratidão à Casa do Povo pelo convite ao Coletivo Warmis para participar do acendimento das velas em memória dos seis milhões de vidas perdidas no holocausto, assumindo isso como uma responsabilidade, especialmente diante do crescimento da criminalização e da violência contra migrantes no mundo.

A ativista ressaltou a importância de colocar um coletivo de mulheres migrantes em articulações e mobilizações políticas, algo que nem sempre acontece. Para ela, é necessário ocupar esses espaços porque o que se precisa são políticas públicas que visibilizem e contemplem as especificidades e necessidades das migrantes. Mesmo sem direitos políticos formais por não terem nascido no Brasil, Moya defende que migrantes e refugiados precisam ter incidência política, construindo articulações e fortalecendo lutas coletivas.

Jobana finalizou afirmando estar feliz e grata por conquistar esses espaços, mas consciente da responsabilidade de permanência, de trabalho constante, de buscar alianças interculturais que valorizem a interculturalidade.

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“Celebrar o levante é pensar o futuro que queremos”, diz Iara Rolnik, presidente da Casa do Povo. Ela destaca a força das mulheres quechuas bolivianas no Bom Retiro e a importância de celebrar lutas presentes, não apenas o passado. (Foto: Bolívia Cultural).

Iara Rolnik: “Celebrar o levante é pensar o futuro que queremos”

Iara Rolnik, presidente do Conselho Deliberativo da Casa do Povo, afirmou que todos os anos comemorar o Levante do Gueto de Varsóvia significa comemorar as várias lutas de grupos que batalham diariamente pelos direitos das populações. Ela avaliou que neste ano foi lindo ver diversas lideranças mulheres com várias frentes de luta, incluindo moradia, imigração, questão cultural e pertencimento.

Comentando a participação de mulheres quechuas bolivianas na cerimônia de acendimento das velas, Rolnik disse que foi maravilhoso, representando a comunidade boliviana que é absolutamente presente e muito importante para o bairro do Bom Retiro. Ela concluiu que foi um dia realmente especial, com alegria por ter tanta gente presente para celebrar uma data que aparentemente trata do passado, mas que na realidade é sobre se levantar todos os dias e pensar o futuro que se quer.

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CERIMÔNIA E PARTICIPANTES

A noite contou com Iara Rolnik como mestre de cerimônia e Marcela Amaral, diretora de operações da Casa do Povo, na apresentação do acendimento das seis velas. Além de Jobana Moya, participaram do ato simbólico Helena Rabethge, Carmen Lopes, Alexsandra Aparecida, Ana Eulália, Miriam Nobre, Lilian Starobinas, Sarah Feldman, Marina Sendacz, Lívia Viganó, Camila Cavalieri, Lia Vainer Schucman, Lilia Moritz Schwarcz e a deputada Erika Hilton.

A historiadora Lilia Moritz Schwarcz, integrante da base associativa da Casa do Povo, também teve participação especial. O encerramento foi realizado pelo Coral Tradição, com o hino dos partisanos “Mir Zaynen Do”, cantado em ídiche.

Fotos – Bolívia Cultural
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